Algumas pessoas sentem-se perdidas na hora de buscar um terapeuta. Terapia Cognitivo-Comportamental, Psicanálise, Existencialismo, Gestalt, há tantas abordagens que a pessoa que busca ajuda pode ficar confusa com essa pluralidade de termos que aparecem identificando o perfil do psicólogo. As abordagens são importantíssimas e devem ser levadas em consideração, mas este texto não tem como objetivo descrevê-las, mas sim trazer à atenção outros fatores, que vão além dos métodos aplicados, que importam para uma boa psicoterapia.

“Nem cliente nem psicoterapeuta acabam o seu trabalho ao fim da sessão. Atingir as metas estabelecidas demanda compromisso e coragem por parte do cliente e, por parte do terapeuta, exige acolhimento sem julgamento”
Ao longo dos últimos 60 anos, centenas de estudos científicos têm analisado o papel de fatores comuns para o sucesso da psicoterapia. Dentre os vários elementos importantes estão a empatia e credibilidade do psicólogo, o apoio psicossocial e preferências do cliente, no entanto, o que talvez apareça mais consistentemente como um poderoso preditor do sucesso terapêutico seja a aliança terapêutica. A aliança terapêutica é a qualidade e a força da relação entre o psicólogo e o seu cliente, quando ambos nutrem sentimentos positivos entre si e estabelecem uma relação de confiança mútua. Na construção dessa aliança, ficam evidentes os objetivos terapêuticos, expectativas mútuas e, de forma significativa, as responsabilidades de cada um. Esse tipo de relação engendra a liberdade para o diálogo de emoções difíceis, mesmo se essas forem direcionadas ao terapeuta (exemplo: críticas em relação às escolhas de técnicas do terapeuta).
Nem cliente nem psicoterapeuta acabam o seu “trabalho” ao fim da sessão. Atingir as metas estabelecidas (como voltar a se relacionar após um evento traumático ou aprender a dirigir mesmo tendo medo) demanda compromisso e coragem por parte do cliente e, por parte do terapeuta, exige acolhimento sem julgamento e habilidades emocionais para auxiliar o cliente frente a desafios e a mudanças ameaçadoras.
Em resumo, a construção de uma forte aliança terapêutica significa que os clientes e psicoterapeutas estão conscientes de suas responsabilidades, co-estabeleceram metas realistas e têm uma relação de confiança, de intimidade afetiva e uma dinâmica de liberdade de comunicação. As diretrizes de técnicas a serem utilizadas e as evidências científicas específicas a cada abordagem terapêutica têm grande importância, mas também a pessoa do terapeuta e a qualidade da aliança/relação construída serão preditores significativos de uma terapia com bons resultados.
Resumo do texto
- Além das abordagens: Embora técnicas (como TCC ou Psicanálise) sejam importantes, o sucesso da terapia depende de fatores que vão além do método escolhido.
- Aliança terapêutica: A qualidade da relação e a confiança mútua entre psicólogo e cliente são os principais preditores de um tratamento bem-sucedido.
- Responsabilidade mútua: O processo exige compromisso de ambas as partes; o trabalho terapêutico continua mesmo após o fim da sessão.
- Colaboração e metas: Uma boa terapia estabelece objetivos claros, expectativas alinhadas e liberdade para diálogos honestos, incluindo críticas ao processo.
- Acolhimento e coragem: O psicólogo deve oferecer empatia e ausência de julgamento, enquanto o cliente precisa de coragem para enfrentar mudanças e desafios.
Para saber mais:
- Norcross, J. C. (Ed.). (2011). Psychotherapy relationships that work: Evidence-based responsiveness (2nd ed.). Oxford University Press
- Norcross, J. C., & Lambert, M. J. (2018). Psychotherapy relationships that work III. Psychotherapy (Chicago, Ill.), 55(4), 303–315. https://doi.org/10.1037/pst0000193

